[L=M] O que tem para se amar no Less Is More?

Um comentário do André Bona na resenha do disco me chamou a atenção:

Ótima resenha. Imparcial e sem ser tendencioso como nos comentários do orkut.

Obviamente, eu fui até o Orkut para conferir qual era. Fazia um tempo que não via o site, pois perdi a empolgação com ele, além de encontrar substitutos mais bacanas (Facebook e Twitter).

Ao chegar nas comunidades da banda (uma delas inclusive fundada por mim em priscas eras), me deparei com uma série de comentários ruins sobre o disco, alguns de me deixar completamente sem saber o que pensar. Era como se eu tivesse ouvido outro disco.

Eu sou um fã crítico, não pago pau para tudo que a banda faz (quem lê minhas resenhas vê que eu procuro ser justo sempre), mas me senti um baba-ovo depois de ver tanta gente falando mal (uma proporção de 7-3 em 10). Resolvi não menosprezar ninguém que pensa diferente de mim, mas quero ressaltar alguns pontos que DEVEM ser avaliados quando se fala do disco.

1. Os arranjos

É impossível achar que a banda foi preguiçosa somente porque as músicas foram simplificadas em seu andamento. Sério gente, quantas bandas vocês vêem que tem a coragem de rearranjar completamente suas músicas, e com o cuidado de experimentar outros caminhos?

Os arranjos novos valorizam vários detalhes que se perdem eventualmente em produção de disco, como a letra e a interpretação maravilhosa do Hogarth na “This Is The 21st Century”, ou a melodia absurdamente tocante de uma “Wrapped Up In Time”. Isso sem contar adições belíssimas como o solo de guitarra em “Quartz”.

2. O processo criativo

A banda podia fazer um trabalho porco e simplesmente trocar guitaras por violões, sintetizadores por pianos, baixos elétricos por acústicos e baquetas por vassourinhas, e chamar isso de “acústico”. 3.456 acústicos da MTV são assim.

Agora, o Marillion é ESSE tipo de banda? Povo, o que faz o Marillion grande é a constante esperimentação e busca de novas idéias. Você ouve uma “Hard As Love” e não pode relacionar ela a outro conceito que não seja ousadia. Não gostou? A original ainda tá lá no seu Brave para você ouvir.

Qualquer um que valoriza uma pessoa ou organização criativa ter que saber que:

(1) Errar faz parte de acertar, pois errar é sinônimo de tentar;

(2) Errar é relativo.

Logo, todo acerto é precedido de 100 erros, e o que é erro para você não necessariamente é erro. Não é a terceira martelada que quebra a noz, mas sim ela + as duas que a antecederam.

A banda criou novas versões para as músicas, fugiu da simplicidade, da mediocridade de jogar na segurança para buscar novos caminhos. 1000 pontos para ela. O duro é ser medíocre sem inovar em nada. Aí é a morte.

3. Novos sons

Eu não sei vocês que estão lendo, mas eu acho sensacional ouvir instrumentos como harmônio, dulcimer e autoharpa em um disco do Marillion. A descoberta de novos sons, novos instrumentos é instigante, bem como a dinâmica entre eles para construir de maneira nova músicas que já conheço de cor e salteado.

E essa é a sacada: são músicas que já conheço desde meus 15 anos (pelo menos algumas, claro), o que me permite apreciar esses sons novos. Essa descoberta torna o disco ainda mais instigante, interessante de se acompanhar. E da próxima vez que você ouvir um desses sons em uma música do Marillion que você vai adorar no futuro, lembra do Less Is More.

4. A liberdade de criar

Algumas pessoas reclamaram que a banda não “dá tempo” entre lançamentos para trabalhar melhor as músicas. Povo, vamos derrubar esse pensamento de gravadora major, que lança disco com data marcada e dentro de contrato. A banda é independente, e sabe (vide item 2) que a qualidade vem da quantidade, não do “tempo para pensar”.

Em tempos de internet, errou levanta e faz de novo. E não só fazer quando estiver absolutamente certo do que está fazendo. Você pode perder 5 anos jogando idéia fora e ainda fazer um trabalho ruim, ao passo que alguém que está sempre trabalhando e experimentando tende a acertar várias vezes nos mesmos 5 anos.

A banda é independente, e isso é maravilhoso: não precisa da permissão de ninguém para fazer nada, tem total controle do que quer fazer, tem contato direto com os fãs para medir o retorno de suas idéias, envolve o fã na criação sem intermediários e acerta muitas vezes.

Eu entendo a insatifação de muitos, apesar de me contorcer quando leio gente dizendo que os últimos 3 discos da banda são ruins (até acho o Somewhere Else meio na média, anda surpeendente, mas o Happiness Is The Road? Sério mesmo, povo?), mas certas coisas são avaliadas com o fígado. Nenhum disco da banda é a última chance dela de fazer algo bom.

E alguns fãs tratam cada disco como se fosse um tudo ou nada. Pessoal, daqui a pouco mídia física não vai existir, música será vendida online e bandas como o Marillion vão sobreviver, justamente por serem capazes de produzir compulsivamente, como pede a música digital.

No mundo de hoje, More Is More. E o Marillion é uma das poucas bandas que entrega.

3 Respostas

  1. Grande Rodrigo,

    Infelizmente ainda não ouvi nada do novo álbum, mas o repertório não me deixou muito animado.

    Depois de formar uma opinião sobre o material poderei avaliar se o amigo foi mesmo imparcial! : )

    Um forte abraço!

  2. Achei o cd muito bom, mas como a maioria de fãs de som progressivo ainda prefiro eles “plugados”. Talvez esse seja o motivo de tanta rejeição, outros trabalhos acústicos do próprio Marilion jã não tinham sido tão bem aceitos como os “normais”, e como esse não é o primeiro, nem como novidade empolgou essa turma. Por isso acho que a banda, consciente que não podia ser mais um trabalho acústico como outros, se esforçou tanto nesse (com sucesso, na minha opinião).

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