
Finalmente, a resenha do disco que motivou uma semana (quase) inteira de posts. Neste meio tempo, pude ouvir o download autorizado para aqueles que fizeram ao pre-order via Racket Records (se você tem dúvidas sobre como ou se deve comprar no site, leia este e este artigos deste blog) e recebi minha cópia física, que ajudou a responder muitas perguntas do tipo “que instrumento estão tocando aqui?”.
Less is More é um belíssimo trabalho da banda. Devo confessar que minhas expectativas – se não baixas – eram mornas. Disco acústico, versões de músicas conhecidas…não parecia ter nada de novo que justificasse uma empolgação fora do comum. Mas, como sempre acontece com lançamentos, toda a expectativa é demolida ao apertar do botão do Play.
A banda radicalizou nas versões das músicas: ousou, aplicou diversos instrumentos exóticos e pouco usuais, refez as músicas, levando algumas à beira de não serem reconhecidas de primeira. Houve todo um trabalho de criar arranjos que fizessem o disco soar como se fosse um trabalho sólido, e não como uma mera coleção de canções.
Para tornar mais interessantes as coisas, vou fazer uma avaliação faixa a faixa. E vou colocar links para a Wikipedia (português quando possível) para cada instrumento exótico que citar aqui, para referência de vocês.
“Go!”
Covardia, é uma música que já é linda em sua versão original, não tem como errar. Porém, havia o desafio de traduzir uma música cheia de efeitos artificiais em algo orgânico, natural. Aí que entra a beleza de decidir pelo uso de instrumentos diferentes: a autoharpa antes do solo de violão cria um efeito sensacional, preenchendo o espaço de teclados e synths.
No geral ela permanece basicamente a mesma canção, mas a interpretação do Steve Hogarth é mais carregada, especialmente nas estrofes finais.
“Interior Lulu”
Vou falar: nunca fui fã da música. Ela virou meio cult entre os fãs da banda, especialmente por causa do solo de teclado completamente fora do comum e pela frase-chave “thank God for the internet”, um mantra entre os admiradores da banda. Porém, a versão acústica dela é outra música, faz muito mais sentido e traz elementos de arranjo vocal e de violão que engrandecem o resultado final.
Um grande ponto é a introdução movida a xilofones, produzindo um efeito intimista e criando um clima apropriado para a música decolar. Talvez seja a melhor versão do Less is More; só não cravo isso na pedra por causa de…
“Out Of This World”
Como você pega uma música que já está na beira da catarse emocional, que tem um repertório de metáforas tão carregadas, uma história de fundo tão tocante e consegue levar isso além? Neste ponto do disco, eu comecei a enxugar lágrimas e prender a respiração ao ouvir.
O som produzido pelo arranjo é sufocante, trazendo o Steve Hogarth (ainda) mais para a frente que na versão original e criando imagens fantasmagóricas. Realmente uma pérola, até mesmo na coragem de preencher com instrumentos as silenciosas estrofes cantadas do final da versão original. Uma nota 10.
“Wrapped Up In Time”
Uma das belas surpresas do disco. Não surpreende, porém, o arranjo, bem fiel à original. Mas impressiona por realçar a beleza que a música tem, mais ainda que na forma original, ao remover a batida e os efeitos sintetizados. Uma faixa que realmente foi despida e assim ficou mais bonita.
O duo piano e voz pontuados por um lick de guitarra aqui e ali nas estrofes traz umas pitadas de jazz que valorizam muito a canção. Outro ponto alto é como os instrumentos vão surgindo na música, sem pressa alguma, até que no final a banda se junta a um coral ao mesmo tempo sutil e belíssimo, em uma grande conclusão para a música, que morre no silêncio.
“The Space”
Com tantas versões exóticas, esperava mais desta faixa. A banda resolveu tomar o caminho de fazer um arranjo extremamente parecido com as versões já presentes nos dois trabalhos acústicos anteriores, com poucas e quase imperceptíveis mudanças.
É um arranjo ruim? Não, é até mais rico que o já apresentado em outras oportunidades; mas em um disco que te preparara para rever as músicas de uma outra forma e que entrega de largada 4 faixas como as anteriores, não deixa de ser um pouco decepcionante.
“Hard As Love”
Essa sim, uma versão no sentido mais literal da palavra. Não fosse ela começar com o Hogarth cantando, seria muito difícil reconhecê-la. “Hard As Love” passou de uma rocker na versão original para uma balada em sua versão acústica, abolindo o refrão em nome de uma vocalização muito interessante do Hogarth.
A utilização de um coro nos versos finais é outra novidade para a banda, até pelo clima meio “soul”, mas que funciona muito bem para recriar um clímax para a música. Você tem todo direito de reclamar da falta de “pegada” em relação à original, mas ainda assim é soberba.
“Quartz”
O instrumental da introdução é top dentro do disco. A reprodução de um relógio é perfeita, criando o clima certo para abrir uma das melhores versões do Less Is More. Ela evolui de maneira bem sutil, dando espaço a uma interpretação bem profunda do Steve Hogarth.
Nada sobreviveu da versão original. No começo eu pensei “poxa, cadê aquela linha de baixo SENSACIONAL do Pete Trewavas?!?!”. Mas tudo foi mudado com tanta esperteza que você nem sente falta.
O refrão, levado a ritmo de jazz, é uma dos grandes momentos do disco, enquanto a parte do “You’re only happy when you’re oiled and jeweled” ficou tão intimidadora em sua versão piano e voz que te prende na cadeira. Além disso, é mais uma música onde a guitarra suave dá o ar da graça, com um solo estremecedor ao final. Sério, é um dos melhores solos do Steve Rothery dos últimos tempos. Perfeita.
“If My Heart Were A Ball It Would Roll Uphill”
Essa não perdeu a pegada “bossa” da introdução e das estrofes, nem foi tão transformada quanto as outras, mas soa muito bem no formato acústico, que parece ressaltar o baixo marcante e a o desespero do vocal do Steve Hogarth. É uma que dá até para dançar, se você estiver com a disposição.
Nem a cantilena de palavras do final da música foi deixada de lado, mas ganhou um arranjo mais suave, que conclui bem a canção.
“It’s Not Your Fault”
O bom de escrever a resenha umas semanas depois do disco sair é que você mede a reação pela rede a certas idéias. Não vi respostas muito boas à única faixa inédita do Less Is More, o que credito a uma expectativa dos fãs de ver um trabalho de banda e receber uma música que podia estar em um dos shows H Natural do Steve Hogarth.
Vou respitosamente discordar. Ok, é basicamente um solo do Hogarth? Apesar dos créditos darem a música para a banda (vou botar a culpa disso no acordo que a banda deve ter de “todo mundo leva crédito por tudo”), a resposta é sim.
Mas e daí? É uma bela música, com uma mensagem absurdamente adequada aos dias de hoje, uma interpretação cheia de tudo que faz o cara um vocal top hoje e com um arranjo bem criado. Mas vou deixar essa faixa para um post à parte. Adianto desde já que gosto muito dela.
“Memory of Water”
Outra vencedora do disco. Sou meio parcial, pois gostaria dela mesmo em versão samba, mas a delicadeza do arranjo, que reproduz com violões o que teclados faziam na original. Sem percussões, sem batidas, apenas voz, violão e um ocasional harmônio no final da canção são o toque perfeito para uma música que não precisa de muito para emocionar.
“This Is The 21st Century”
Nada contra batidas eletrônicas, desde que sejam de bom gosto, mas esta é outra música que ganha muito em uma versão mais orgânica. Ok, ela perde muito do clima pesado da versão original, movida a sintetizadores e aquela batida assombrante, mas a percussão se faz presente de forma bem eficiente, ressaltando os principais pontos da música, e a redução do arranjo valoriza a interpretação de uma das letras mais bacanas que a banda já apresentou.
“Cannibal Surf Babe”
Podia ser melhor, podia ser pior. É uma faixa bônus, mas poderia empolgar mais. Além de não ser uma novidade no cancioneiro acústico da banda, o arranjo é muito óbvio (usando idéias de versões anteriores) e a faz perder todo aquele vibe Beach Boys da versão original. Umas vocalizações mais Brian Wilson (as que existem são poucas e baixas) talvez tornassem a faixa melhor, mas do jeito que ela está, impede o disco de terminar com um highlight.
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Belo texto.
Eles se superaram… Out of this world, Hard is Love e Quartz ficaram notáveis…
Abraços
Ótima resenha. Imparcial e sem ser tendencioso como nos comentários do orkut.
Eu acho que tinham um universo de canções melhores e que gerariam uma expectativa, e talvez, uma aceitação maior de cara.
Como por exemplo The King of Sunset Town que foi abandonada pela banda e que para mim é um dos grandes clássicos, além de ter sido a primeira música a se ouvir a voz do Hogarth no Marillion.
André, fui dar uma olhada nos comentários do Orkut e me decepcionei um pouco. Acho que muita gente lá não entendeu direito a proposta do disco ou tem uma resistência natural ao que o Marillion faz atualmente. Eu vou segurar uns textos para falar disso no próximo post.
Valeu pelo elogio.